Pelos Cotovelos!

Sexta-feira, Junho 12, 2009

Texto dos Outros VII

Aproveitando a ocasião, resgatei um texto do Artur da Távola que já deve estar mais do que manjado para alguns, mas que não perde a força da mensagem. Principalmente quando é publicado em 12 de junho, dia dos namorados. Parabéns!
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TER OU NÃO TER NAMORADO

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil. Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho. Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria. Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar. Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário. Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto. Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor. Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro. Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar. Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais. Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele. Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz. Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim. Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria. Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

Quinta-feira, Maio 07, 2009

Dia Internacional de Histórias de Vida

Fazia muito tempo que eu não escrevia aqui. Mais tempo ainda que eu não fazia um post "diarinho". Mas essa semana meu comparsa marginal Ramon Ribeiro me passou um e-mail que chamou a atenção. Reacendeu a vontade de escrever, livre de regras jornalísticas, leads, formatos, abordagens X e Y. Trata-se de uma iniciativa do Museu da Pessoa (gostei do nome e da idéia), juntamente com o Center for Digital Storytelling que criaram o Dia Internacional de Histórias de Vida, esse ano em sua 2ª edição.

Apesar de propor um tema pré-estabelecido (no caso, "Jornada em busca de Justiça") e direcionar os participantes a destacar histórias de pessoas forçadas a sair de sua terra natal por causa de crises econômicas, guerras, degradação ambiental e repressão política, a celebração abre espaço para uma atividade que anda um pouco esquecida. A de enxergar além do óbvio, procurar a raiz, buscar a essência das pessoas comuns, cotidianas e, o mais interessante, contar as histórias que descobrimos. Histórias interessantes pra caralho que, à primeira vista a gente nunca imaginaria que pertencesse ao vigia-da-nossa-rua, ao ex-professor-universitário- que- virou-hippie, ao camelô-do-centro, à prima-bailarina, a senhora-que-pede-esmola-na-passarela e por aí vai. Personagens como o mecânico-do-bairro, o pescador-do-Potengi, a sanfoneira-cega, o fazedor-de-pipa, gente que a gente passa diante diariamente, sem perceber. Gente como a gente. Gente adjetivo, hifenizada, que existe aos bocados, que a gente costuma chamar de massa, tudo igual, a gente. Biografias no difícil território do cotidiano.

Dar importância, parar pra ouvir, sentar, escutar, sonhar, contar é o que propõe esse dia. Pode parecer uma coisa totalmente trivial (e é), mas me deixou excitado pra caralho.

Não é nenhuma novidade que personagens da vida real enriquecem matérias e fazem jornalistas ganhar prêmios, e, dizem as boas línguas, que esse é o futuro do jornalismo. HU-MA-NI-ZA-ÇÃO. Ótimo, beleza, palavra linda. Mas falta a nós, jornalistas, descer do patamar que a profissão nos confere, deixar o gravador (pense numa arma!) e o crachá de repórter de lado, e se deixar levar pelas histórias das pessoas, se envolver. Não se trata de fontes, declarações, mas de sentimentos, realidades lúdicas, paixões e sofrimentos que não devem exatamente ser usados pra vender jornal. É preciso esquecer do deadline, se fazer de casa, se tornar íntimo por vontade e não por necessidade. Foi nisso que pensei quando vi o anúncio do Dia Internacional de Histórias de Vida.

É piegas pra caralho, mas o olhar começou a ficar aguçado pra cenas bestas do dia-a-dia. Nelas cabem tanto significado. E eu espero que até dia 16, e depois e depois, muitos encontros com histórias bacanas ocorram. Pra mim e pra quem se interessar. É bom pra cabeça, pro coração e não deixa o blog morrer, hehehe. Falando nisso, a galera do Catorze tá querendo postar esses "perfis" no blog até dia 16. Quem quiser me mandar histórias pra publicar aqui, sintam-se à vontade, o espaço é de vocês. Até mais.



Quarta-feira, Abril 08, 2009

Texto dos Outros VI



OS HOMENS OCOS - T. S. Elliot

"A penny for the Old Guy"
(Um pêni para o Velho Guy)

Nós somos os homens ocos
Os homens empalhados
Uns nos outros amparados
O elmo cheio de nada. Ai de nós!
Nossas vozes dessecadas,
Quando juntos sussurramos,
São quietas e inexpressas
Como o vento na relva seca
Ou pés de ratos sobre cacos
Em nossa adega evaporada

Fôrma sem forma, sombra sem cor
Força paralisada, gesto sem vigor;

Aqueles que atravessaram
De olhos retos, para o outro reino da morte
Nos recordam - se o fazem - não como violentas
Almas danadas, mas apenas
Como os homens ocos
Os homens empalhados.

II

Os olhos que temo encontrar em sonhos
No reino de sonho da morte
Estes não aparecem:
Lá, os olhos são como a lâmina
Do sol nos ossos de uma coluna
Lá, uma árvore brande os ramos
E as vozes estão no frêmito
Do vento que está cantando
Mais distantes e solenes
Que uma estrela agonizante.

Que eu demais não me aproxime
Do reino de sonho da morte
Que eu possa trajar ainda
Esses tácitos disfarces
Pele de rato, plumas de corvo, estacas cruzadas
E comportar-me num campo
Como o vento se comporta
Nem mais um passo

- Não este encontro derradeiro
No reino crepuscular

III

Esta é a terra morta
Esta é a terra do cacto
Aqui as imagens de pedra
Estão eretas, aqui recebem elas
A súplica da mão de um morto
Sob o lampejo de uma estrela agonizante.

E nisto consiste
O outro reino da morte:
Despertando sozinhos
À hora em que estamos
Trêmulos de ternura
Os lábios que beijariam
Rezam as pedras quebradas.

IV

Os olhos não estão aqui
Aqui os olhos não brilham
Neste vale de estrelas tíbias
Neste vale desvalido
Esta mandíbula em ruínas de nossos reinos perdidos

Neste último sítio de encontros
Juntos tateamos
Todos à fala esquivos
Reunidos na praia do túrgido rio

Sem nada ver, a não ser
Que os olhos reapareçam
Como a estrela perpétua
Rosa multifoliada
Do reino em sombras da morte
A única esperança
De homens vazios.

V

Aqui rondamos a figueira-brava
Figueira-brava figueira-brava
Aqui rondamos a figueira-brava
Às cinco em ponto da madrugada

Entre a idéia
E a realidade
Entre o movimento
E a ação
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino

Entre a concepção
E a criação
Entre a emoção
E a reação
Tomba a Sombra
A vida é muito longa

Entre o desejo
E o espasmo
Entre a potência
E a existência
Entre a essência
E a descendência
Tomba a Sombra
Porque Teu é o Reino
Porque Teu é
A vida é
Porque Teu é o

Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Assim expira o mundo
Não com uma explosão, mas com um suspiro.


* Esse é o cara! T.S.!!! Alguém me dá um livro dele...

*² Querendo acabar com essa seção... Perdeu a graça.


Sexta-feira, Março 06, 2009

Encontro

Eu queria ter ido. Seguir aquele garoto onde quer que fosse. Andar pelo escuro no asfalto frio. Queria segurar sua mão macia de rapaz desocupado. Ouvia o som do seu calçado ao arrastar. Ouvia o eco dos latidos furiosos. E eu queria tê-lo seguido. Eu só queria ter ido.


Vagar pela noite sob os fios retraídos. Ver os olhares das sombras e as risadas dos bêbados. Mas eu não pude...

Permaneço ali estático por horas. Ela fitava o caminho dele. O andar torto por entre seus cílios úmidos. Guarda consigo suas palavras. E eu, que queria ter ido, espero pelo fim do silêncio nela preso.


O outro segue as costumeiras vias desertas. Pára, senta, respira a vida que ainda o resta. Eu e ela, estáticos, fitávamos ainda o seu caminho. Ele olha para trás e os enxerga no portão. Ela o chama para junto de si. Eu os sigo e me encontro ali em definitivo.



Para Denise



*Esse é dos primórdios. Achei agora a pouco revirando os e-mails velhos. Passaram-se anos, acontecimentos importantes, perdas, ganhos e mudanças, muitas mudanças. Mas, mesmo assim, o texto me traz muito clara a sensação que tive no dia em que o escrevi. Talvez só tenha significado pra mim, mas achei importante publicá-lo.



Segunda-feira, Fevereiro 02, 2009

Texto dos Outros V

Bendito - Adélia Prado

Louvados sejas Deus meu Senhor,
porque o meu coração está cortado a lâmina,
mas sorrio no espelho ao que,
à revelia de tudo, se promete.
Porque sou desgraçado
como um homem tangido para a forca,
mas me lembro de uma noite na roça,
o luar nos legumes e um grilo,
minha sombra na parede.
Louvado sejas, porque eu quero pecar
contra o afinal sítio aprazível dos mortos,
violar as tumbas com o arranhão das unhas,
mas vejo Tua cabeça pendida
e escuto o galo cantar
três vezes em meu socorro.
Louvado sejas porque a vida é horrível,
porque mais é o tempo que eu passo recolhendo despojos,
– velho ao fim da guerra como uma cabra –
mas limpo os olhos e o muco do meu nariz,
por um canteiro de grama.
Louvados sejas porque eu quero morrer,
mas tenho medo e insisto em esperar o prometido.
Uma vez, quando eu era menino, abri a porta de noite,
a horta estava branca de luar
e acreditei sem nenhum sofrimento.
Louvado sejas!


Sexta-feira, Novembro 21, 2008

Daniela ou Apenas Vivo

Ela atribuía a si o frescor que havia trazido aos meus dias. Chegava a se gabar por ter resgatado em mim a possibilidade de uma vida novamente interessante. Eu assistia ao dias com um sorriso quase perene, como que agradecido por tudo que a presença dela significava naquele tempo. Daniela, com maestria, usava o auto-reconhecimento como artifício para atrair cada vez mais admiração. Um sujeito tão tímido quanto eu só podia me sentir protegido pela segurança que ela transmitia. E tinhas outros atributos, muitos outros que não vêm ao caso falar agora.
A vida ao lado daquela pequena mulher (tinha 19 anos quando nos conhecemos) foi de uma vertiginosa intensidade. Hoje percebo que foi uma experiência breve, porém, por mais relutante que eu seja, ainda trago marcas dos nossos dias. Algumas atitudes, alguns lugares, minha auto-piedade, memórias.
Daniela me deixou no meio de uma visita ao Jardim Botânico. Debaixo das palmeiras reais, soltou minha mão, fez um silêncio grave, em seguida disse que não me amava mais..Beijou-me a barba e foi embora. Ainda tive tempo de ver uma lágrima em seu olho castanho. Minha reação? O que se esperar de uma velho de 51 anos subitamente abandonado por uma garota de 19, quase 20?
Eu fiquei imóvel. Permaneci assim durante uns 2 minutos, vendo-a caminhar apressada até sair do meu campo de visão. Não chamei por ela, não abri a boca, não chorei. Permanci ali, inerte, uma vida inteira. E nunca mais vi Daniela. Nem notícia, telefonema, carta, não, nunca.
Tornei-me um velho petrificado. Sou uma pessoa vazia, desde então. Não me comovo mais com nada, exceto quando visito o Jardim Botânico (e faz alguns anos que eu não ando por aquelas bandas). Até das lembranças me blindei. Meus dias passam mais rápido quando levo o Elvis, meu pincher, pra passear no calçadão. Uma partida de xadrez na praça, uma visita à banca, olhar o mar de manhã cedo. Gosto também de andar de metrô, nem precisa de destino certo. Mesmo que literal, me inspira movimento. E isso me parece imprescindível para não morrer.
Tenho um coração saudável para as pessoas de minha idade. Nunca fui chegado em vícios. Só bebi na época em que estava com ela, lá se vão o quê, 10 anos, eu acho. Não me lembro bem. Relembrar certas coisas não é mais tão fácil quanto antes. Mas eu falava do coração. Ontem pensei que ia ter um infarto ao chegar em casa. Ontem à tardinha. Tombado na poltrona, senti meu peito se dilacerar, uma dor atroz. Paradoxalmente, há tempos não me sentia tão vivo, tão sensível.
Horas antes, no metrô, três estações antes da que habitualmente desço, uma criança correra em minha direção. O garoto sorriu pra mim e pôs a mão no meu braço. Eu não me considero um velho ranzinza, mas não me enterneci com a cena, não fui cortês. Ele então correu até uma mulher que estava sentada ao lado da porta do vagão. Ela o pegou no colo e observou para quem o seu filho apontava. Reconheci na mesma hora aquele olhar acastanhado. Daniela sorriu, como uma forma de assentir a simpatia do pequeno com aquele senhor comum sentado no metrô. Instintivamente me encolhi no assento reservado para idosos, como se estivesse tomado de extrema vergonha de mim. Talvez não fosse isso, mas assim reagi. Enquanto espiava de soslaio aquela outra Daniela, ela, mãe dedicada, brincava com seu filho alguns bancos à frente.
Acabei descendo uma estação antes da minha, meio atordoado. Teria ela me reconhecido? - Não, não é possível - remoía dúvidas. Estaria ela casada? Será que era feliz? Talvez ainda carregasse a segurança inabalável das mulheres bonitas. Nunca o caminho para casa havia sido tão longo.
Ontem eu podia ter morrido. Eu queria ter morrido, na verdade. Mas estou vivo, fisiologicamente falando. Aquele encontro no metrô levou de mim toda a fortaleza, a blindagem do íntimo. Hoje acordei e não quis sair da cama. Elvis latiu a manhã toda. Até trouxe a coleira pra cima do meu travesseiro. Ainda fragilizado pela dor da última tarde, levantei e olhei pela janela do apartamento. O bonito dia que se descortinava lá fora compreendia uma espécie de justiça poética para os últimos acontecimentos. Uma recompensa. E alguma coisa me dizia: vá gastar o tempo que ainda te resta.


Sábado, Agosto 23, 2008

Cheio e Vazia ou Vasos Comunicantes

Sob a incandescência morta, o silêncio prevaleceu, farto, demorado se comparado à rapidez com que o sol se punha. O rio que é mar se prateava em ondas e pequenos caranguejos assistiam a tudo. O espetáculo diário de assistir a cheia e esvaziar-se em seguida. Quase não aceito a princípio, o despretensioso convite para observar o curso da natureza acendeu uma dúvida fora de contexto. A interrogação surgiu da paisagem: seria a amizade biodegradável?!
Uma onda bateu forte nas pedras nessa hora e todos os bichos vivos se esconderam entre as frestas. Teorias díspares surgiram instantaneamente na circunferência chapada do sol, como que me iluminando. A amizade é tão forte e duradoura como a rocha na beira do mar, pensei, desculpando-me por achar numa figura sem vida e cristalina demais motivo de comparação com tal sentimento. Outra onda, outra tese. A amizade é, sim, biodegradável, tão mortal e frágil como os caranguejinhos que ali estavam. Biodegradável como o amor, como a mágoa.
O silêncio ainda pairava quando o sol se apagou no horizonte e eu, conflito de terra e céu, resolvi que a dúvida era o melhor benefício. É difícil tirar conclusões quando o assunto é amizade. É melhor serenar ao vento de uma tarde amena do que se atirar na água revolta, encharcando tudo o que foi vivido. A natureza dá lições a todo momento.
O silêncio é a mais sábia atitude. Foi a nossa prece, a nossa forma de reverenciar aquela tarde tão intensa em que as palavras não se fizeram necessárias.
Esvaziemo-nos como a maré.


Solar

O sol se pôs
E o céu, um pastel só,
Pincel de nós,
Anoiteceu depois.